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5ª Mostra O Amor, a Morte e as Paixões

27 jan

 

Começou ontem a V Mostra O Amor, a Morte e as Paixões. Essa mostra, que traz ao público de Goiânia alguns quilos de cinema diverso, teve sua última edição em 2004, acumulando um forte sentimento de nostalgia cinéfila na cidade. Serão duas semanas (termina em 09/02) e cerca de 60 filmes, ritmo acelerado para os mais animados. Alguns de meus textos serão publicados em jornal, outros, só aqui. De todo modo, pretendo registrar no blog algumas ou muitas linhas sobre o que conseguir assistir, às vezes não tão precisas, escritas no limite de um possível cansaço no fim dos dias.

 

Enquanto isso, segue aí uma pequena lista de recomendações:

  • Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson (Suécia) – filme sueco de vampiro, filme de primeiras paixões. Uma beleza.
  • O Espião que Sabia Demais, de Tomas Alfredson – das atmosferas mais envolventes que vi nos últimos anos. Pegada do filme está na trilha, no clima, na cadência e, enfim, nos muitos sentimentos que pontuam um enredo de espionagem que nem importa tanto. E Gary Oldman tem o filme no bolso.
  • Habemus Papam, de Nanni Moretti (Itália) – um Papa em crise. Ou um ator em crise. De qualquer jeito, é muito bom.
  • As Canções, de Eduardo Coutinho (Brasil) – pessoas cantando, cantando pessoas. Coutinho é grife. E das melhores.
  • Tetro, de Francis Ford Coppola – esse fica recomendado pelo nome, pois Coppola em tela grande é sempre de interesse. Um Coppola menor, mas com aquela forte carga pessoal de muitos filmes menores.
  • Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia) – ao lado dos Alfredson, pode ser a melhor seleção da Mostra. Será debatido após a sessão de 03 de fevereiro.

 

Os que não vi, mas que me interessam muito:

  • L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, de Bertrand Bonello (França)
  • Luzes na Escuridão, de Aki Kaurismäki (Finlândia)
  • O Porto, de Aki Kaurismäki (Finlândia)
  • Triângulo Amoroso, de Tom Tykwer (Alemanha)
  • Submarino, de Thomas Vinterberg (Dinamarca)
  • Hiroshima – Um Musical Silencioso, de Pablo Stoll (Uruguai)
  • Turnê, de Mathieu Amalric (França)
  • Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb (Irã)
  • Cartas do Kuluene, de Pedro Novaes (Brasil)
  • J. Edgar, de Clint Eastwood (EUA) – estreia no circuito na mesma época da mostra, sendo exibido ao lado dos demais.
Por Fabrício Cordeiro
@fabridoss 

Titanic

23 nov

 

Corpos e gravidade

Rever Titanic depois de muitos anos é algo assim: paciência – wow, legal – música ruim – do caralho – paciência – paciência – bom casal – bom casal? – música ruim – pobres são mais legais – wow, do caralho – paciência – Billy Zane griladão – Billy Zane muito griladão – música ruim – som foda – wow, fantástico – ¬¬

Como narrativa clássica, esse cinemão de James Cameron atinge níveis significativos de inteligência, seja na tela ou (alguém duvida?) no mercado de amores eternos. Um recorde de estatuetas douradas ajuda, mas Jack e Rose parecem sobreviver sozinhos, embora muita coisa tenha caído no brega ou simplesmente já nascido assim (Dion?). Mais que isso, solidificou DiCaprio e Winslet, hoje duas carreiras Hollywood bem interessantes. Em 97/98, Titanic poderia ser grande demais para eles, mas não foi; isso é bom.

Cameron tem as manhas da grandeza. Sempre teve. Não faz cinema-britadeira como Michael Bay ou é um operário como Gore Verbiski. Os 60 minutos de navio afundando talvez sejam seu tour de force, façanha que poucos conseguiriam com algum ritmo e elegância. A fisgada que me faz gostar do filme está ali, acima do romance abobrinha, certamente acima do simplório olhar sobre as classes. Na última hora de duração, um imenso navio é inundado, afunda, racha ao meio, e Cameron detalha por suas entranhas (pratos imaculados se espatifando) e por “externas”, pessoas deslizando e caindo como se fossem sacos de batatas. Efeitos e alta maquinaria hollywoodiana que não engolem a tela.

Gosto de pensar em Titanic como um filme sobre Física. Corpos e gravidade. Foi assim que me impressionou em janeiro de 1998, e de certa forma ainda impressiona.

*será relançado nos cinemas em abril de 2012 num 3D caça-níqueis.
Por Fabrício Cordeiro
@fabridoss 

 

 

 

 

 

Blokada

18 nov

 

Corpo na neve e bala de canhão

Do filmes que vi nos últimos meses, um que certamente me impressionou alguns níveis além do habitual foi My Joy (2010), do russo Sergei Loznitsa, em competição no penúltimo Festival de Cannes. Primeiro longa de ficção do cineasta, é um filme que, condizente com sua abertura, se comunica como espatuladas de cimento, secando e endurecendo por duas horas. Antes de My Joy, porém, o cinema de Loznitsa se concentrava no documentário, com particular atenção para Blokada (Bloqueio), sobre a Leningrado cercada pelo exército nazista.

Sem falas e sem narração, Blokada é puro som e imagem, se revelando muito capaz de independer da lembrança do emblemático Noite e Neblina, de Alain Resnais, obra de princípio semelhante. As imagens são registros, resultado de pesquisa e montagem de Loznitsa em arquivos da Segunda Guerra. Os sons, incluídos, desenhados como se visassem um impacto para além da mera produção de ruído ou barulho, configuram incrível sensação de imergir em um testemunho. Talvez numa espécie de dosagem de luto, há pequenos intervalos de tela preta, que podem preceder tanto um bonde quanto um prédio em chamas. Temos aqui os 900 dias do cerco a Leningrado em poderosos 50 minutos jogados na tela como bala de canhão, com tiros e súbitos estrondos destrutivos dividindo espaço sonoro com passos e carros. Isso num cinema…

Há, também, aquele rico momento presente nesses pedações de registro bruto (e brutal, no caso de Loznitsa) como Blokada, em que uma pessoa ou uma família debandada, uma criança que seja, olha curiosa para a câmera. Sempre interessante pensar nesses filmes vistos hoje, setenta anos depois, e no futuro. História de corpos na neve e cordas no pescoço.

Por Fabrício Cordeiro
@fabridoss 

Conan, o Bárbaro (2011)

18 nov

 

Há quase 30 anos, Arnold Schwarzenegger não imortalizou Conan nos cinemas apenas pela corpulência, mas por John Milius saber explorar aquela figura física bastante única e bronca (nesse sentido, John McTiernan e James Cameron também souberam como filmar Arnoldinho). No Conan, o Bárbaro de 1982, a sensação é de que Schwarzenegger não interpreta Conan, mas uma estátua de Conan ou algo assim, próximo a um desenhado perfeito.

Jason Momoa, o novo Conan, parece um guerreiro modelo qualquer. Mas pega peso no supino, isso percebemos.

Foi só ontem que me submeti ao Conan 2011, de Marcus Nispel, diretor que tem a mania horrorosa de passar sabão e xampu em filmes supostamente hardcore (remakes de O Massacre da Serra Elétrica e Sexta-feira 13). É tudo muito limpo, uma forte impressão de que Conan pode arrancar uma ou duas cabeças numa cena e vestir roupas da GAP em outra.

 Após introdução meio confusa (aquelas breves narrativas sobre a história de povos e terras dizimados), o filme nos apresenta a um Conan criança, garoto-Capricho que aprende a esmagar cabeças e fazer cortes que espirram baldes de sangue, mas sempre nessa estética de comercial de TV. Bonitinho, limpinho, bárbaro. Meia-hora de duração, vira Momoa (bem mais conânico como Khal Drogo na série Game of Thrones): bonitão, limpão, bárbaro, pronto para enfrentar gente feia, deformada, dentes podres e mulher sem sobrancelhas.

 Ano passado, o cinema blockbuster hollywoodiano nos trouxe aventurinha semelhante em outra espécie de refilmagem, Fúria de Titãs, também ruim, mas que tinha, além de certo elenco, alguma lucidez nas suas grandes bobices – ou simplesmente noção do seu ridículo. Conan 2011 faz bocejar nas mais simples cenas de ação, filmadas como um seriado B. Na rede cinéfila MUBI, um rapaz diz ter se lembrado de Xena. Faz todo sentido.

Por Fabrício Cordeiro
@fabridoss 

Pacific

18 nov

 

Passageiros da alegria

 

Há algo de muito triste neste registro de alegrias que é Pacific, documentário de Marcelo Pedroso que estreia em Goiânia na próxima sexta-feira, 23 de setembro, na sofrida reabertura do Cine Cultura. O filme inicia a programação da Sessão Vitrine na cidade, onde serão exibidos sete longas brasileiros, cada um em cartaz por uma semana. Todo longa é antecedido por um curta-metragem.

Um dos fundadores da Símio Filmes, fértil veia pernambucana do nosso cinema, Pedroso parece ter realizado aqui uma espécie de documentário surpresa, montagem do que se imagina ter sido uma grande coleta de filmagens feitas por passageiros de um cruzeiro nacional, o Pacific, com destino à Fernando de Noronha. Logo no começo, há informação de que a equipe de produção só entrou em contato com as pessoas após o fim do trajeto, com um cinema que se consolida desde o princípio na escolha e ordem das imagens, deixando aquela impressão de que é mesmo com cortes e recortes que se faz, enfim, um filme, e não apenas uma gravação de férias.

Na sua primeira imagem, o Pacific – grande demais, talvez espetacular demais, tudo demais – parece não caber nos sonhos enquadrados pelo cinegrafista amador. O nome inglês do navio é pronunciado com sotaque pernambucano pelo auto-falante da van/ônibus, momento que acaba se assemelhando, em essência, a muitas das atrações oferecidas por esse barcão recreativo. Entre outras coisas, o pacote inclui versões scanneadas de Broadway (O Fantasma da Ópera), Hollywood (Frank Sinatra) e do próprio Brasil (Garota de Ipanema, com direito a uma noção geral e imaginada de praia), cenário de fotocopiação cultural capaz de lembrar o parque de réplicas de O Mundo, do chinês Jia Zhang-ke . Vez ou outra os passageiros também emulam algo do tipo, como o casal que vê no Pacific a sua chance de Titanic, ou no pianista sem notas, “personagem” que Pedroso seleciona com algum traço de melancolia.

De mesma importância, o material das filmadoras revela aquele nosso interesse pela nossa própria imagem. A câmera em si mesmo ou dirigida ao espelho traz os rostos e corpos desses passageiros, pois “se não aparece, não adianta”. É provável que o espectador saia de Pacific sem lembrar o nome das pessoas, mas é difícil esquecer suas imagens, o que fazem delas e o que são feitas por elas, suas próprias filmagens. Aos poucos, essas câmeras soltas pelo cruzeiro acabam por apresentar um mix de hotel, clube e casa de shows rodeado de água por todos os lados, sugerindo aqui um estranho reality show (uma semana “sem contato algum com o mundo lá fora”, fala que surge numa cena com três controles remotos). Após anunciada a máquina de chopp, o zoom da câmera mira a marca da empresa, talvez por instinto.

A passagem por Fernando de Noronha, ilha de fato, é breve. A festa de Réveillon aguarda com as conhecidas promessas cantadas. Promessas festivamente solidificadas em fogos de artifício, que então podem se desmanchar no ar.

Por Fabrício Cordeiro
@fabridoss 

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